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Além da órbita: seguros na missão Artemis II.

  • Foto do escritor: TINA PETRI
    TINA PETRI
  • há 22 horas
  • 4 min de leitura

Notícias | 17 de abril de 2026 | Fonte: CQCS | Livia Alves


Realizada entre 1º e 11 de abril de 2026, a missão Artemis II marcou o primeiro voo tripulado do novo programa lunar da NASA em mais de 50 anos. Com duração de cerca de 10 dias, a operação levou quatro astronautas a orbitar a Lua a bordo da cápsula Orion, em uma jornada que, além de avanço tecnológico, evidenciou o papel do seguro como parte essencial da viabilização de missões espaciais de alto risco.
Realizada entre 1º e 11 de abril de 2026, a missão Artemis II marcou o primeiro voo tripulado do novo programa lunar da NASA em mais de 50 anos. Com duração de cerca de 10 dias, a operação levou quatro astronautas a orbitar a Lua a bordo da cápsula Orion, em uma jornada que, além de avanço tecnológico, evidenciou o papel do seguro como parte essencial da viabilização de missões espaciais de alto risco.


Do ponto de vista securitário, uma missão espacial é formada por diferentes camadas de risco que evoluem ao longo do tempo. Segundo Fábio Ursaia, SVP de Riscos Corporativos e Resseguros da Alper Seguros, não se trata de uma única exposição contínua, mas de uma sequência de riscos que se transformam conforme a missão avança.


“Uma missão como a Artemis II pode ser entendida, do ponto de vista securitário, como uma sequência de riscos que evoluem ao longo do tempo. Não se trata de um único risco contínuo, mas de diferentes exposições que mudam de natureza conforme a missão avança.”


De forma geral, essas coberturas se dividem em dois grandes grupos. O primeiro é o de hardware, voltado aos bens materiais, como foguete, cápsula e componentes. O segundo é o de responsabilidade civil, que cobre prejuízos causados a terceiros, inclusive durante a operação em órbita. Além disso, seguros mais tradicionais também podem ser aplicados, como o de vida, abrangendo astronautas e profissionais envolvidos em todas as fases do projeto.


A jornada começou ainda na fase de fabricação e montagem, quando os riscos se aproximaram de grandes projetos de engenharia, incluindo danos físicos durante construção, testes e transporte. À medida que o sistema se aproximava da operação, entrou a fase de pré-lançamento, momento em que o ativo já estava integrado e qualquer evento poderia comprometer integralmente o investimento antes da missão começar.


Seguros acompanham cada etapa da missão


O lançamento nos Estados Unidos, concentrou o maior nível de risco. Tratou-se de uma janela curta, mas com potencial de perda total, exigindo coberturas específicas e estruturas próprias de precificação. Após essa etapa, o risco passou a estar ligado à performance da missão, especialmente em operações que envolveram voo tripulado, trajetória lunar e reentrada na atmosfera terrestre, concluída em 11 de abril.


Nesse contexto, a análise do mercado vai além dos danos materiais. Ursaia destaca que a capacidade de a missão cumprir seu objetivo também é central na avaliação do risco. “No setor espacial, a análise vai além do dano físico. O risco central muitas vezes está na capacidade de a missão cumprir seu objetivo. Por isso, além do dano material, a cobertura de falha de missão assume um papel fundamental.”


A responsabilidade civil também ganha protagonismo nesse tipo de operação, já que eventuais falhas podem gerar impactos fora do ambiente controlado, seja durante o lançamento, reentrada ou até em órbita.


Apesar da evolução das coberturas, o setor ainda enfrenta desafios relevantes, especialmente na precificação desses riscos. A limitação de dados históricos e a singularidade de cada missão exigem uma abordagem altamente técnica e baseada em engenharia.


“O principal desafio está na limitação de dados históricos e na singularidade de cada missão. O setor espacial exige uma abordagem baseada em engenharia e análise técnica profunda.”, afirma.


Outro ponto crítico é a capacidade do mercado global, que ainda é concentrada e limitada. Um único evento pode consumir uma parcela relevante do capital disponível, o que torna essencial a distribuição do risco entre diversos participantes.

Esse modelo é uma das bases do seguro espacial. Na prática, a cobertura não é assumida por uma única seguradora, mas estruturada globalmente, com participação de diferentes players e forte apoio do resseguro.


Mesmo assim, há riscos que ainda desafiam o setor, especialmente aqueles com baixa capacidade de modelagem, como detritos orbitais em cenários de alta densidade, riscos cibernéticos e novas operações fora da órbita terrestre. “A principal limitação está na dificuldade de quantificar esses riscos de forma consistente. Sem clareza sobre frequência, severidade e correlação, a alocação de capital se torna mais restrita.”


Com o avanço da exploração espacial e a perspectiva de viagens comerciais no futuro, a tendência é que o mercado evolua à medida que esses riscos se tornem mais compreensíveis e repetíveis.


“A tendência é que o mercado evolua à medida que o risco se torna mais compreensível e repetível. O aumento no número de lançamentos, a entrada de novos operadores e a maior disponibilidade de dados operacionais devem contribuir para tornar essas exposições mais modeláveis.”


A viabilização dessas coberturas depende de uma estrutura global de compartilhamento de risco, coordenada por brokers especializados e sustentada pelo mercado de resseguro. “Na prática, a capacidade é construída de forma compartilhada. Um player pode liderar a estrutura, definindo termos e preço inicial, mas a exposição é dividida entre diversos participantes. Cada um assume uma parcela do risco, formando uma torre de capacidade.”


O sucesso da Artemis II abriu caminho para novas missões e inaugurou um novo desafio para o mercado de seguros. À medida que a exploração espacial avança e se aproxima de uma realidade mais frequente, o setor tende a ser pressionado a evoluir para acompanhar riscos cada vez mais complexos, mantendo-se como um dos pilares invisíveis que sustentam a jornada humana além da órbita terrestre.


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