Se a moradia é mais comum que o carro, por que o seguro residencial não ocupa o mesmo espaço que o seguro auto?
- TINA PETRI
- 13 de fev.
- 4 min de leitura
Notícias | 12 de fevereiro de 2026 | Fonte: Insurtalks

Uma explosão causada por vazamento de gás destruiu ao menos duas casas no começo deste mês em Jardim Ângela, na Zona Sul de São Paulo, deixando 10 pessoas feridas. O Corpo de Bombeiros registrou colapso estrutural no imóvel onde ocorreu o vazamento e danos em residências vizinhas. A suspeita inicial indica que um botijão caiu com o registro aberto, liberando gás até a detonação. Incidentes como esse mostram o nível de vulnerabilidade doméstica à qual muitas famílias estão expostas. Quando um fato dessa natureza ocorre, é inevitável pensar no que poderia reduzir ao menos parte do impacto financeiro e estrutural deixado para trás e em como o seguro residencial poderia ajudar as famílias a atravessar as consequências materiais de uma ocorrência dessa dimensão.
Cobertura para além do dano imediato
Vazamentos de gás, curtos-circuitos, falhas estruturais e infiltrações não costumam ser percebidos como risco iminente por muitas famílias e, quando acontecem, a consequência envolve danos materiais e, muitas vezes, perda de moradia, interrupção da rotina, despesas médicas, responsabilidade por prejuízos a terceiros. Um seguro residencial cobre, em geral, explosão, incêndio e danos decorrentes. A depender da apólice, inclui reconstrução do imóvel, reposição de bens, despesas temporárias com hospedagem e responsabilidade civil por prejuízos causados a vizinhos. Num caso como o do Jardim Ângela, as casas atingidas ao redor também entram na equação e a recomposição patrimonial disponibilizada pelo seguro poderia reduzir o impacto financeiro e jurídico.
A lacuna cultural na percepção do risco doméstico
Mesmo com tantas vantagens, a contratação desse tipo de seguro ainda não é suficientemente ampla no Brasil (o seguro residencial ainda tem pouca adesão, se comparado ao de automóvel, por exemplo), e isso se deve, dentre vários fatores, a uma lacuna cultural. É fácil observar que o carro é vinculado a diversos riscos quase automaticamente; em relação à moradia, as pessoas raramente fazem essa associação. Essa ideia deveria causar alguma estranheza já que nem todo mundo tem um carro, mas todos vivem em algum tipo de imóvel e estão expostos a ocorrências semelhantes às que atingiram alguns moradores do Jardim Ângela.
Comunicação como fator de adesão
A adesão menor ao seguro residencial, quando comparada ao automóvel, sugere uma diferença na percepção e reconhecimento dos riscos no cotidiano, assimetria essa que convida a examinar suas causas para entender as consequências. Como parte desse exame é possível perceber que a resposta está na comunicação.
O seguro auto se é cercado por campanhas constantes, presença em concessionárias, bancos, corretores, comparadores digitais e publicidade reiterada ao ponto de ter se tornado parte do vocabulário cotidiano. Já o residencial, embora tecnicamente abrangente e com custo proporcionalmente menor, segue pouco explicado e pouco comunicado. Muitos proprietários desconhecem que a cobertura básica inclui incêndio e explosão; alguns inquilinos ignoram que podem contratar proteção para seus próprios bens, independentemente do imóvel pertencer a outra pessoa.
Falar de risco com exemplos verificáveis
Por isso é importante que o setor relembre que informar exige clareza sobre situações concretas. Vazamento de gás, pane elétrica, queda de árvore e danos a vizinhos são ocorrências tangíveis, com efeitos financeiros mensuráveis. A comunicação pode explorar meios digitais, aplicativos bancários, redes sociais e marketplaces, mas também depende de orientação direta de corretores, síndicos e imobiliárias. O tema precisa aparecer onde a moradia é discutida: contratos de locação, financiamentos, condomínios e reformas. Esse é o núcleo da conversa. A partir dele, faz sentido ampliar o alcance para ambientes em que os riscos da casa já são enfrentados no dia a dia, ainda que o seguro não esteja explicitamente em pauta.
Levar a informação aos pontos de contato do cotidiano
Para além dos espaços em que a moradia é formalmente tratada, a proteção do imóvel precisa circular onde o problema aparece primeiro, ou seja: nos serviços públicos, nas contas de consumo, nos programas habitacionais e nas reuniões de bairro. Nesses pontos de contato a informação pode ganhar concretude e se tornar parte da rotina.
Como isso pode funcionar? Unidades de saúde, CRAS e subprefeituras lidam diretamente com as consequências de explosões, incêndios e falhas elétricas; nesses espaços, materiais simples podem relacionar prevenção e proteção financeira. Concessionárias de gás, energia e água já se comunicam com moradores por faturas e aplicativos, canais adequados para explicar coberturas ligadas a curto-circuito ou explosão. Programas habitacionais e processos de regularização fundiária alcançam famílias no momento em que da posse do imóvel, essa é uma etapa propícia para orientar sobre proteção patrimonial. Associações de bairro, mutirões comunitários e campanhas do Corpo de Bombeiros tratam de riscos concretos e permitem inserir o seguro como complemento à prevenção. Escolas públicas, EJA, aplicativos de serviços domésticos e correspondentes bancários em áreas periféricas também oferecem pontos de contato cotidianos, nos quais informação clara e exemplos objetivos podem ampliar o conhecimento sobre o seguro residencial.
Traduzir cobertura técnica em escolha cotidiana
O caso do Jardim Ângela é um desenho concreto da distância entre risco real e percepção pública. A casa costuma ser o principal patrimônio de uma família e, ainda assim, a proteção desse patrimônio circula pouco no debate cotidiano. Ampliar essa conversa significa traduzir coberturas técnicas em situações reconhecíveis, com linguagem acessível e exemplos verificáveis. O seguro residencial existe, é bom e funciona; o que falta é ampliar a comunicação sobre ele, alertar sobre sua importância e transformá-lo em parte das escolhas práticas de quem vive o dia a dia da casa.




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